domingo, 6 de maio de 2012

Tenho chão.


Passam pouco mais de sete meses desde que perdi o meu teto. Mantenho o chão. Já fui desespero. Já fui dor. Já fui mar de esperas e onda gigante. Fui rochedo, mar de calmaria. Já fui céu que se deita e abraça o mar. Fui pacífico e atlântico, maré vaza e maré alta. Estive a norte e a sul. Naveguei para o outro lado do mundo. Fui gota de mar salgado, um bordado feito de espuma, mar de perdição. Fui pirata e escravo em terras de além mar. Fui o olhar de uma vaga e corrida contra o cansaço numa praia deserta. Fui areia branca... Fui concha esquecida, um golfinho, um beijo, cavalo-marinho e estrela do mar. Fui balanço num bote pesqueiro e navegante, à deriva, num barco à vela. Fui aldeia piscatória num país do sul. Fui amor, louco e rebelde, amor débil, paixão de verão. Fui um grito de dor, uma praia distante. Fui casa caiada de branco e gaivota em voo planado. Debaixo do céu demasiado azul e de sol escaldante, fui salina e essência, um sorriso, uma lágrima. Hoje, sou o mar que carrego com todos os azuis dos mares por onde andei. Hoje e sempre sou filho da minha mãe. Hoje tenho um chão. Hoje estou grato, um pouco mais que ontem e um pouco menos que amanhã.




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